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quinta-feira, 21 de junho de 2012

estado ausente, indivíduos frágeis


No auge de minha vida acadêmica, encontro-me, arraigado a esta ilha como nunca antes. Não seria um auge propriamente dito, mais enfim, o momento tão esperado, o último ano dos que já foram muitos. Posso dizer que é um período produtivo, e muito, mais pouco se deve ao entorno acadêmico, que a meu ver, castiga tanto seus alunos quanto a rotina de um humilde trabalhador que se desloca diariamente do longínquo submundo periférico ao centro de uma grande metrópole, ganhando muito pouco e com ainda menos perspectivas de vida melhor.

Esta população pobre, seja de recursos como de possibilidades, tanto se desgasta em sua rotina de sobrevivência que ao fim de cada jornada, não alcança maneiras de lutar por seus direitos, de refletir sobre sua situação, de organizar-se e tomar um posicionamento que, em uma sociedade mais justa, permitiria talvez, uma mudança no caminho das coisas. Assim como esta machacada camada da nossa sociedade, os alunos como eu, embora em escalas e por motivos distintos, também sofrem. É importante deixar claro que são realidade bastante distintas, aqueles trabalhadores representam a maioria de uma sociedade desigual e injusta, nós, alunos, somos minoria, extremamente beneficiada.

A contraposição foi colocada por um motivo simples, que a energia despendida para realizar as atividades cotidianas que cabe a cada atividade, seja do trabalhador ou do aluno, é muito maior daquela que o próprio indivíduo dispõe. Com isso, não há condições mínimas para que estas pessoas desenvolvam capacidade crítica ou atuação política. Acabam sufocados por suas próprias atividades e, quando muito, por outras de caráter mais superficial que são a única fuga do submundo dos perdedores em que habitam sem perspectivas próximas de ascensão social. Parece-me que estes sujeitos se apresentam como uma espécie de “servos da modernidade”.

Isto não pretende ser uma justificativa da minha pequena longa carreira de aluno. É somente um comento sobre aquele “auge” que citei inicialmente. Pois, somente liberto das intensas e desestimulantes atividades acadêmicas é que o aluno pode desenvolver-se politica, crítica e artisticamente. Talvez sejam apenas fases, etapas que servem de peldanhos para alcançar algo mais a cada passo. Ou, sejam apenas pobres justificativas de algo injustificável, mais ainda assim, necessário.

Pois, paradoxalmente, mais livre e consciente, encontro-me radicalmente fixo a este território. Não que isso seja um dado negativo, muito pelo contrario, devo muito de tudo e de cada pequena coisa a esta cidade e a vida que levo aqui. Entretanto, infelizmente, minhas viagens longas e duradouras se extinguiram, e minhas fugas sazonais acabaram minguando. Mais é justamente num destes esparsos deslocamentos que tratei de compor este conto.

Percebi em uma pequena cidade, transformações evidentes que atropelam o quase imutável e tranquilo ritmo de vida de seus habitantes. Aqueles indivíduos, habitualmente sonolentos e despretensiosos, pouco percebem o ritmo frenético com que seu espaço urbano se transforma. Pequenas e médias cidades se modificam em um ritmo desconhecido, influenciado fortemente pela atual situação econômica privilegiada com que nosso país vive.

Estamos passando por uma espécie de “entusiasmo construtivo” que é fortalecido por financiamentos habitacionais abundantes via Programa Minha Casa Minha Vida. As cidades transformam-se em verdadeiros canteiros de obras, entretanto, a maioria destas obras, principalmente nos centros urbanos, parece privilegiar uma pequena parcela da população, enquanto que o chamado déficit habitacional paira sobre outra parcela, aquela de baixa renda. Mais, como bem foi colocado, estes investimentos habitacionais fazem parte de uma estratégia econômica, muito distante de uma política social.

Também faz parte desta política “anti-crise”, a redução de impostos sobre veículos novos. Vemos então um aumento significativo da frota de veículos e uma aparente estabilidade econômica. Diferentemente disso, as nossas cidades não apresentam a mesma tranquilidade, na verdade, percebe-se um real deterioro e degradação de seu espaço físico. Ora, pois, milhares de novos edifícios e obras públicas não deveriam qualificar nosso país? A primeira vista essa indagação poderia ser uma afirmação veemente. Entretanto não é o que acontece na prática.

É triste que tantos recursos sejam assim mal aplicados, para não dizer desperdiçados. Podemos até considerar uma espécie de desperdício, pois, quase sempre o barato sai caro. Se voltarmos a produzir habitação para baixa renda massivamente em áreas periféricas e, de uma qualidade completamente questionável, qual será a permanência destas arquiteturas? Destruiremos amanhã estas novas cidades que estamos construindo hoje? Tudo aponta para um fatídico “sim”.

E o que faremos com tantos carros? Com tantas novas pistas asfaltadas a cada dia? Enquanto os carros se proliferam como praga, as vias urbanas, a infraestrutura viária e os transportes públicos pouco se modificam. Assim, valorizando o automóvel e desvalorizando a arquitetura, poderíamos prever além de cidades cada vez mais congestionadas e de aparência questionável, pessoas crentes que o automóvel é o verdadeiro símbolo de ascensão social. Talvez futuramente as pessoas passem a morar em seus veículos e nos concentraremos apenas, em projetar garagens. 

domingo, 27 de maio de 2012

“o bom motivo de registrar”



As lembranças que temos das experiências vividas têm um limite: o esboço da fala. Antes dela a memória, como a língua, apenas balbucia. Isso quer dizer que a memória, para ser constituída, precisa ser descrita. Então, é na narrativa dos fatos que a nossa experiência ganha significado e permanência. Daí o valor das conversas, das histórias contadas, para as atividades que recorrem à memória, às associações e à imaginação, ou daí o valor da tradição oral para as atividades propriamente humanas.
Ângelo Bucci, no livro São Paulo, razões de arquitetura. Da dissolução dos edifícios e de como atravessar paredes.

Afirmei na noite passada que, os processos criativos dois quais nos ocupamos é, de certa maneira, uma atividade espiritual. As atividades artísticas são, para mim, uma maneira de equilibrar-se, para viver melhor. É preciso expressar-se, seja qual for a método utilizado, é preciso dar forma as inquietações pessoais, de modo que uma coisa alimente a outra num circuito contínuo, produtivo.
Dar forma à memória é construir conhecimento. Descrever a memória é um processo de construção dela mesma e de aprendizado, amadurecimento e crescimento pessoal. Enfim, tá ai uma justificativa da descrição, sobre qualquer coisa. As pessoas precisam aprender a conversar, compartilhar, falar sobre tudo ou sobre nada. Assim, para descrever se faz necessário recorrer à memória, que é efêmera e se desfaz rapidamente.
Tudo se transforma neste caminho infinito do autoconhecimento, os registros servem não só para olhar para trás e perceber as mudanças, mais essencialmente para absorver o conteúdo das coisas e preencher o que geralmente está sempre vazio. A memória. O imediatismo, a mania de novidade... assistimos a tudo sem perceber nada, ouvimos tudo sem escutar nada, vivemos sem construir, compartilhar, vivemos sem contribuir para nós mesmo, ser sem absorver nada. Vive-se um novo processo de “lobotomia-virtual”, nos deixamos levar, influenciar sem construir opinião. Poucos são aqueles que comentam, debatem, que descrevem a memória, e isso deveria ser apenas uma maneira de viver melhor consigo mesmo. Automaticamente, de conviver melhor com todos.
Evidentemente aquilo que causa entusiasmo, muitas vezes passa despercebido. São expectativas que acabamos criando, porém, que podem não têm importância alguma. Mais ainda assim vale descrever as coisas simplesmente e não criando demasiadas esperanças com coisas não tão importantes.
Não se pensaria se não se fosse expressar aquilo que se pensa, e não existe expressão se não se deseja fazê-lo desejando pensar. Entretanto, parece-me que quanto mais se recorre à memória no processo de construção de conhecimento, mais vazia resulta a própria memória. Uma contradição então, pois acredito que quanto mais informações possamos absorver, mais claras elas se apresentam. Isso porque só conseguimos ordenar as ideias em um grande conjunto, como se fosse uma escrivaninha, que só estará ordenada quando as coisas superficiais que pousam sobre ela forem despachadas e restarem somente aquelas que realmente importam.
Talvez isso tudo seja só ilusão. Ilusão de que alguém veja conteúdo onde nós encontramos somente vazio. Páginas escritas quando existem apenas páginas em branco. 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Cidade, reflexo de seus habitantes


Este pequeno ensaio publicado no "Diário do Sudoeste", jornal da cidade de Pato Branco, foi construído sobre um outro ensaio, anteriormente publicado neste blog, sob o irônico título de "Beltão tem mais livrarias que Pato Branco!". A intenção deste ensaio, publicado no jornal, é a de gerar uma repercussão, mesmo que pequena, sobre a realidade da cidade, uma reflexão individual sobre nossa postura como coletividade na produção do espaço urbano e de suas atividades. Felizmente parece que a recepção foi interessante, recebi um comentário do pessoal da rádio "Elite FM" (em nome de Laudi Vedana), que multiplicou através deste meio, a mensagem deste ensaio, multiplicando a abrangência e ocasionando uma enorme alegria e este humilde autor. 
Grato a redação do Diário do Sudoeste e ao pessoal da Elite FM.


Na íntegra ...

Recentemente, em uma de minhas últimas visitas a Pato Branco, daquelas que nunca quero que chegue e depois, desejo que nunca termine, estive a refletir sobre algo interessante que acredito valer a pena compartilhar.
Caminhando por estas ruas deparei-me com uma quantidade enorme de algumas atividades, enquanto outras pareciam não existir. Poderia enumerar uma quantidade inacreditável de farmácias, lojas, salões de beleza, açougues, garagens, enfim, uma infinidade de coisas que permeiam o centro da cidade. Embora tudo isso pareça normal, acredito que os usos enraizados na cidade refletem diretamente a cultura de sua gente. E o que mais me intriga, é que não existe sequer uma livraria.
Está bem, podemos dizer que há lugares onde se vende meia dúzia de best-sellers, mais nada que se pareça com uma livraria, aquele espaço onde podemos deambular em busca de algo ou esperando que este algo nos encontre. Logicamente não existiria na Avenida Tupi algo como El Ateneo de Buenos Aires, ainda assim, sinto que a ausência de espaços como este, tenha grande impacto na vida de nossos habitantes. Alguém poderia nos dizer que hoje em dia não se compram mais livros como antigamente, que a tecnologia nos aproxima da cultura e que a internet pode fornecer todo o tipo de informação instantaneamente. Há ainda, aqueles que afirmam que a criação do e-book acabará, pouco a pouco, com a cultura ultrapassada de comprar livros e acumular papéis.
Pessoalmente, acredito que a internet tem se mostrado uma grande aliada à superficialidade do ser humano. Embora exista uma disponibilidade enorme de informação ao alcance de todos, há uma incrível preferência por futilidade em relação à utilidade.
Se no passado existiam cinemas e livrarias nas ruas desta cidade, me pergunto porque estas atividades caíram em desuso? Seria a tecnologia e o excesso de informação a causa da morte prematura das atividades de formação cultural nas pequenas cidades? O que poderíamos fazer para reverter esta situação? 
Muitas das nossas perguntas sempre permanecerão sem respostas, porém, são estas que nos levam adiante, são as indagações que nos induzem a crescer pessoalmente.
Desta maneira coloco a seguinte questão: será o ambiente empobrecido que conforma seus habitantes, ou será a superficialidade dos indivíduos que produz um ambiente tão pobre? Deixemos de ser alienados. Foram os indivíduos que criaram esta realidade, que moldaram o espaço, que desenvolveram e se utilizaram de suas atividades. Entretanto, também fomos nós, não individualmente e sim como coletividade, que desenvolvemos esta cultura da superficialidade, banalidade e futilidade. Estas características (intrínsecas à nossa sociedade hoje) se enraizaram no espaço urbano e são fruto direto das atividades, individuais e coletivas, que foram moldando as relações sociais e, indiretamente, os usos e as atividades que compõe o espaço da cidade.
Evidentemente somos todos responsáveis pela cidade que criamos e recriamos diariamente. Estamos conseguindo desenvolver um ambiente empobrecido, frequentando sempre os mesmos lugares, encontrando sempre as mesmas pessoas com as mesmas ideias baratas e desta maneira, moldando um espaço tão pouco atraente quanto as nossas próprias convicções. Apesar de tudo, somos nós que devemos buscar uma mudança de comportamento e consequentemente em construir uma cidade mais rica social e culturalmente. 

sábado, 14 de janeiro de 2012

ho-ba-la-lá de Marc Fischer


Vinte e quatro horas desde que abri o livro. Talvez umas dez horas de leitura. Quanto anos Marc Fischer dedicou a João Gilberto para presentear alguns leitores com um sonho compartilhado? A história da bossa nova é mesmo triste na figura mais representativa do coração da beleza.

Uma história que tinha tudo pra ser uma obra detetivesca, inspirada em Sir Conan Doyle. Mais é uma história real, tão real quanto a esta própria declaração de amor a Bossa Nova, ao Brasil e, principalmente, a João.

Um ser único e, a meu ver, incompreendido. Por esse Brasil afora, quem realmente sabe quem é João? Da geração nascida nos anos oitenta até os dias de hoje são exceções aqueles que por ventura já ouviram “Ho-ba-la-lá”.

Um individuo sozinho em busca do sonho. Reconhecimento, popularidade, isso não importa, seu compromisso é com a música, com as suas próprias convicções. Tachar alguém de tantã é muito fácil, fazemos isso toda hora, tanto quanto queremos “matar alguém” sem nunca ter tido coragem de pisar em uma simples formiga. Nosso umbigo acaba sendo o centro do mundo. E a opinião comum diz o que é certo e errado neste mundo de dualidades abestalhadas.

João está certo. Não é doido, não é depressivo nem depravado. Pode ser sensível demais. Ele está certo, seu compromisso é consigo mesmo, com a música, com a beleza verdadeira. Um gênio. A Cultura brasileira deveria abraçar a causa, um patrimônio da humanidade reconhecido em cada rincão do planeta não pode ser deixado de lado assim, a mercê do tempo. Um músico que é aplaudido por vinte e cinco minutos ininterruptos lá no Japão e que pouco toca nos rádios brasileiras. Entretanto, doa-se milhões para se fazer um “blog”. Ainda fosse Elis Regina.

João não quer que se façam documentários sobre ele, a figura João não é o que importa, se ele pudesse, ensinaria todos a cerrarem os olhos quando se escuta “chega de saudade”.

Medo. É o que sinto quanto penso no momento em que ele se vá. Medo do que a mídia venha a fazer com sua figura enquanto ele, se pudesse, imploraria para que a música, que preenche seu apartamento no Leblon por quase doze horas diariamente, pudesse soar sem nenhuma interferência. Para o mundo todo poder ser tocado, preenchido, completo, satisfeito.

Mais tudo trata-se de um anseio. E anseio é coisa que ninguém pode apanhar. 


sábado, 24 de dezembro de 2011

beltrão tem mais livrarias que pato branco!

Por Vinicius Libardoni

Existem acontecimentos estranhos.  Porém, estes sucedem somente com pessoas neuróticas. Completamente neuróticas. Não que me considere assim, uma pessoa perturbada, pelo menos, não muito. De fato, estes indivíduos, atingem tal grau de controle sobre as coisas que, acabam se descontrolando redondamente.

Chegar à rodoviária, na véspera de uma viagem, sem ter um documento em mãos não me surpreende. O mais interessante é que havia tempo suficiente para tomar três ônibus que me levavam até em casa, pegar meus documentos, e voltar para meu destino a tempo. Bem, com uma pequena folga que ainda me permitiu comprar um delicioso pão de queijo antes do embarque. É isso que eu chamo de “neurose crónica do tempo”.

Falando em tempo, passei horas sentado desconfortavelmente naquela poltrona. Não fosse o bastante, o maldito ônibus tinha que quebrar. Isso porque eu podia escolher outro horário, eram dez ônibus para o mesmo destino. E o destino do ônibus que levava o neurótico era quebrar no meio da estrada. Paciência. Não havia sido nem a primeira e, com toda certeza, não será a ultima vez que o destino, ou melhor, o ônibus apronta uma destas comigo.

Apesar da aparente tranquilidade, a turbulência da viagem se encarregou de potencializar as sensações desagradáveis que me acompanhavam ao longo do caminho. Assim, cheguei ao meu destino depois de dezesseis horas de aventuras. Isso porque foram apenas setecentos quilômetros, o que me pareceria uma média de muitos poucos quilômetros por cada hora.

Mais todo esse blá-blá-blá não é o que interessa. Na verdade isso ai não tem interesse algum.

Esta proeza toda foi, simplesmente, para visitar minha família em uma pequena cidade do interior. É ai que eu me refiro. A esta cidade interiorana que me fez refletir sobre algo interessante, sobre como o ambiente pode moldar, em parte ou completamente, os seres humanos que nele habitam.

Caminhar por estas ruas é deparar-se com uma quantidade enorme de algumas atividades, enquanto outras parecem não existir. Poderia aqui ficar numerando uma quantidade inacreditável de farmácias, lojas de roupa, açougues, garagens, enfim, que refletem diretamente na cultura dessa gente. Porém, o mais intrigante é que não existe uma livraria. Pode-se dizer, há um lugar que vende uma meia dúzia de best-sellers, mais nada que se pareça com uma livraria.

Alguém poderia dizer que hoje em dia não se compram mais livros nestes locais, que a internet pode fornecer todo o tipo de informação e que a criação do e-book vai acabar com esta cultura ultrapassada de comprar livros e de acumular um monte de papéis. Mentira. Calúnia.

A internet tem se mostrado um grande aliado à superficialidade do ser humano. Embora exista uma disponibilidade enorme de informação ao alcance de todos, há uma incrível preferência por futilidade em relação à utilidade.

Se no passado existiam cinemas e livrarias nesta cidade, porque estas atividades caíram em desuso? Será a internet e o excesso de informação a causa desta morte prematura das atividades de formação cultural nas pequenas cidades? O que poderíamos fazer para reverter esta situação?

Como dizem por ai, “sempre teremos mais perguntas que respostas”, e são as perguntas que nos levam adiante, são as indagações que nos induzem a evoluir psicologicamente.

Será que este ambiente empobrecido está moldando os indivíduos que nele habitam, ou será que a superficialidade dos indivíduos é que está produzindo um ambiente tão pobre? Um alienado poderia facilmente confundir as situações, porém, foram os indivíduos que criaram esta realidade, que moldaram o espaço, que criaram e se utilizaram de suas atividades. Entretanto, também foi os indivíduos, não individualmente e sim como coletividade que, desenvolveram esta cultura da superficialidade, banalidade e futilidade. Estas características, intrínsecas a nossa sociedade hoje, se apropriaram do ambiente e são fruto direto das atividades, individuais e coletivas, que foram moldando as relações sociais e, indiretamente, os usos e as atividades que compõe o espaço da cidade.

Parabéns a todos nós (eu também me incluo neste seleto grupo), estamos conseguindo desenvolver um ambiente inóspito, frequentamos sempre os mesmos lugares, encontramos sempre as mesmas pessoas (isto não seria um problema se elas não tivessem sempre as mesmas ideias baratas construídas no último capítulo da novela das nove) e moldando um espaço tão pouco convincente quanto as nossas próprias convicções.

Já não dá pra acreditar em um futuro, se é que ele possa ainda existir. Mais no fim, o mundo acaba ano que vem mesmo. Deixemos de tanto papo furado e vamos ao que interessa. Ao contrário destas tantas tonterías, se Beltrão tem mais livrarias que Pato Branco, isso pode ser um motivo pra tentar reverter a situação. Talvez assim, com essa ideia de competitividade sempre presente na sociedade hoje, alguém pense em alguma coisa, se é que podemos ainda pensar.


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

calem-se os leigos

Por Vinicius Libardoni

A cidade é, em primeira instância, algo muito complexo. Está composta por edifícios, pessoas, espaços, enfim, milhares de coisas que existem por si só e se relacionam simultaneamente com todas as outras. Quando se visita um lugar, cada ser humano está passando por uma experiência única, as cidades não parecem estranhas, pelo menos, não completamente. A maioria se parece com alguma que você já conhece, ou seja, ao observar cada edifício, cada placa, cada signo ou informação, buscamos compreende-las, e o que é compreender senão o ato de abstrair ideia ou noção de alguma coisa de acordo com sua experiência prévia incorporada através dos anos. Mais sinteticamente, você poderá localizar/identificar um monumento, uma praça, as ruas e avenidas, os bares, as estações, enfim, tudo ou quase tudo. Se aproximarmos a escala, muitas coisas podem ser deduzidas (pelo menos com um pouco de esforço mental), ou seja, definir áreas centrais, comerciais, residenciais, ou onde habitam as pessoas com maior poder aquisitivo e entender, partindo para uma análise, o porquê de tudo isso. Pode-se até prever quais áreas você não seria bem vindo, ou onde você estaria deslocado de sua situação de conforto por não fazer parte de uma coletividade presente. Enfim, sob os olhos treinados de uma pessoa pouco atenta e minimamente alienada, é possível extrair muitas informações sobre determinados espaços, lugares, cidades. 

Em uma segunda dimensão, não menos importante, poderíamos afirmar que a cidade se faz de pessoas, ou seja, é impossível que uma cidade seja cidade se aquelas pessoas que a constroem e habitam estiverem ausentes, não teria sentido algum. Desta maneira, a cidade é feita pelas e para as pessoas que ali se encontram. A cidade é ainda, uma definição geográfica de espaço, pois, ao definir um espaço cria-se um limite físico. A cidade é algo definido no espaço, porém, não existe um paradigma evidente sobre todas as outras coisas presentes nas cidades. 

Porque toda esta conversa sem sentido que mais parece uma novela que procura hipnotizar mentes frágeis e superficiais? Na verdade não está claro nem para este medíocre ser pensante que vos fala. Entretanto, é escrevendo que organizo meus pensamentos, então, tratarei de seguir adiante. Já que, o que interessa aqui é o processo de chegar a algum lugar e não exatamente aonde chegar. 
A cidade, bem, falávamos de cidades. Habitei em algumas cidades por um bom tempo e passei por centenas de cidades outras. Procuro minha própria identidade a partir da identidade de cada lugar, como se fosse um devaneio de autoconhecimento. Assim (falando de lugar, mesmo que esta discussão não faça mais, tanto sentido, pra não dizer sentido algum), nos identificamos com muitos lugares, ou seja, quando algum espaço nos agrada, significa que aquilo que sentimos encontra uma referencia com nós mesmos como indivíduo. Logicamente, esta viagem que fazemos inconscientemente em nosso conhecimento prévio, funciona em todas as instancias da vida. O grande problema reside em nossas próprias referências, ou melhor, quais são as referências que oferecem nossos meios de informação. Na arquitetura, tudo tem a ver com aquilo que escolhemos pra tomar emprestado, pois então, as velhas referências. Como se diz por ai, “ignorância não é contagiosa, se cura em uma biblioteca”. Infelizmente, minha experiência comprova, irrefutavelmente, que a incapacidade de levantar a bunda do sofá em busca de conhecimento, isso sim, é contagioso, e mais, aliena e leva a morte (pessoalmente, não vejo muita diferença entre um ser humano incapaz de usar 20% de sua capacidade mental e uma ameba, ou um ser vegetativo). Ninguém tem culpa de ser ignorante e, queira ou não, somos todos ignorantes em alguma dimensão. Ignorante, por não conhecer algo ou alguma coisa, ignora a existência das mesmas. Já o burro, é aquele que acha agradável ser um ignorante em todas as instancias e se orgulha deste lamentável fato. Mais isso não é conversa para burros.

Quando se é ignorante em determinado assunto, procuramos naturalmente alguém que possa suprir esta nossa, por assim chamar, deficiência. Por exemplo, quando se está doente o que se faz? Procura-se um médico! Por quê? Porque você é um ignorante em medicina e não pode se curar sozinho, pelo menos ainda não apreendemos esta faceta da medicina alternativa. Logicamente, muitas vezes você suspeita de seu problema e acaba por medicar-se sozinho, o que não é do todo errado, pois se cada pessoa com dor de cabeça procurasse um médico, isso seria um caos completo. Este seu conhecimento prévio ajuda muito ao médico, pois você precisa informar lhe os seus sintomas prévios corretamente, se não me engano, isso faz parte da anamnese ou coisa do estilo. Agora pergunto: porque na maioria dos casos, as pessoas não questionam a atitude de um bom médico? Pois sua saúde é o maior bem que você possui! Fácil assim!

Agora, enfim, passemos para a arquitetura. O que você faz quando planeja ter um lugar para morar. (Primeiro vamos excluir a hipótese de procurar uma imobiliária ou um corretor de imóveis, e em segunda instancia, e mais complicada, vamos excluir a hipótese de você procurar um engenheiro civil para projetar a sua casa, não entrarei em detalhes, pois, a minha incapacidade técnica me impede ou me faltariam argumentos). Enfim, vamos supor que você procure um arquiteto. Por quê? Pois ele é a pessoa especializada ou ao menos, indicada para este assunto. Logicamente você tem uma série de expectativas, experiências e referencias prévias sobre sua nova morada. Você sabe identificar um lugar aconchegante, um lugar opressivo, um lugar tranquilo, enfim, tudo que se refere a seus sentimentos em relação ao espaço. Muito bem, isso já é um grande passo. Vamos chegando mais perto do ponto mais importante. Você também possui milhares de referencias em relação ao que agrada você esteticamente, correto? Maravilhoso. Agora me pergunto, você entende de arquitetura? Na maioria das vezes não, não completamente. Você pode ser artista plástico, estilista, músico, enfim, uma série de coisas que se relacionam diretamente com a estética, tectônica, materialidade arte ou afins. Porém há um fato, você não compreende arquitetura na sua complexidade, além de que a arquitetura não é somente, e muito distante disso, um ofício estético. Ou seja, você argumentaria com seu médico para ele prescrever AAS infantil ao invés de lexotam somente porque você “gosta mais”? O que te dá o direito de argumentar com seu arquiteto, que você prefere Rococó na sua fachada porque você “gosta mais”? Bom, iniciamos um longo debate que está por vir. Deixamos de comparações com outras áreas e nos concentremos na arquitetura.

A sua casa é sua certo? Corretíssimo. Ou seja, ela deve estar de acordo com suas expectativas e seus sentimentos. Também é correto. Agora, também é tão certo como isso que a sua casa pertence a um lugar, a uma cidade, e principalmente, a um determinado tempo. O tempo de hoje. O que isso significa? Isso significa que um edifício tem identidade e você precisa se identificar com ele, e essa identificação deve ser perfeita quando se trata de Sua casa. Porem, devemos ir a fundo à essência e escapar de superficialidades. Isso já é uma tarefa difícil. Se um edifício tem identidade, e ela deve estar de acordo com o lugar e com o tempo, pergunto: é certo desejar morar em um templo grego? É certo! Desde que você encontre um templo grego na Grécia que esteja com uma placa de “aluga-se para fins residenciais”! É tudo uma questão de coerência temporal, tectônica e contextual. Como nos disse Derrida, que a arquitetura não é uma questão de espaço, é mais antiga que ele e, portanto, uma espacialização do tempo. 

Não entrarei em méritos da arquitetura “pós-moderna”, mais é vergonhoso que em pleno século XXI continuemos a reproduzir, mal e porcamente, fragmentos de arquiteturas históricas. Ainda fosse uma proposição fractal ou uma nova versão do ecletismo, porém, infelizmente, são apenas paródias, ou comédias pictóricas daquelas que se toma como referência. Se fosse possível, aquelas ruínas gregas e romanas estariam suplicando a autodestruição por haver sido tão mal interpretadas mais de dois mil anos depois. Aliás, desta maneira, parece que a arquitetura mal evoluiu nestes dois últimos milênios. Isso porque devemos ver a realidade a partir de tudo que se produz atualmente e não através de uns pouco e excepcionais profissionais. Lastimável situação.

Logo, não devemos estar preocupados em criar novas e espetaculares arquiteturas. Não há muito que se inventar por ai. Há, isso sim, uma série de boas referências, exemplos e possibilidades, os quais, podemos tomar como referência e a partir dos quais, podemos compor uma arquitetura adequada, coerente e correta. Apropriar-se da arquitetura, mais nunca reproduzi-la infielmente e muito menos, partes desconexas da mesma. Não se trata de criação e criatividade, se trata de preocupação com aquilo que é bom para nós, para os outros, para a arquitetura e para as cidades. Trata-se de reinterpretar, revisitar a arquitetura com a finalidade de possibilitar uma nova e distinta visão dela mesma a partir de uma visão outra.

Você procura um arquiteto, fala sobre suas expectativas e sentimentos, e o arquiteto é responsável por traduzir isto em arquitetura, em espaço construído. E porque? Porque se trata de indivíduos, de sentir-se bem, de um espaço para viver, um espaço identificável como seu, pois quando nos identificamos com algo, significa que, as suas referencias previas condizem com aquela realidade que está sendo assimilada. 

Ainda, deve-se levar em conta que qualquer arquitetura faz parte de uma cidade, e ela deve se relacionar com esta cidade, com seu entorno imediato e com seu entorno global. Imagine um ser humano que não se relaciona com os demais, ou pior, que se relaciona de forma agressiva, invasiva, grosseira ou violenta com os outros. É quase isso. A arquitetura deve ser sincera com o lugar. Deve ser justa com o tempo, deve ser verdadeira. Deve acrescentar algo a cidade e deve participar do processo de produção e construção dela. Na vida, devemos procurar acrescentar algo as pessoas e as coisas, devemos produzir algo que possa colaborar com alguma coisa. Precisamos evoluir. Assim como a arquitetura deve colaborar com a experiência tectônica e estética do mundo e proporcionar um ponto de vista distinto sobre a cidade ou sobre os indivíduos que a habitam (ou que simplesmente a observam). Um indivíduo deve participar da sociedade, produzir algo que colabore, que venha a somar, ou viemos a vida simplesmente para assisti-la passar assim como passará essa “pseudo-arquitetura de papelão”? 

Este texto é uma interpretação particular de assuntos discutidos no livro de Kate Nesbitt, “Uma nova agenda para a arquitetura, antologia teórica 1965-1995. São Paulo, Cosac Naify, 2006. Também compreende assimilações do ensaio “La ressonância temporal e la arquitectura” de Tony Díaz publicado pela revista Summa+ n.97, Noviembre de 2008.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O (des)controle do tempo


Por Vinicius Libardoni
E eu sigo ouvindo as pessoas exclamarem com veemência que o tempo passa rápido demais. Um dia desses, quando minha colega de trabalho disse: “Caramba, já nos aproximamos do final do ano!”, me permiti construir um pensamento que descrevo mais ou menos desta maneira:

Seria o sentimento de descontrole, do decurso do tempo, certa ausência de memórias significativas?  Acredito que essa foi a minha grande conclusão aquele dia. Tentarei explicar, algo que, na verdade, pelo menos pra mim, não tem explicação alguma.

Em curto prazo, o tempo sempre parece passar apressadamente, principalmente para aqueles que têm o tempo bastante ocupado, ou, na verdade, ocupam razoavelmente o seu tempo com afazeres variados. A repetição de tais afazeres é o que poderíamos chamar de “rotina”. Normalmente a rotina é tida como algo desinteressante e desanimador. A verdade é que a rotina pode não ser chata, desde que, ela possa ser incrementada por novas atividades cotidianamente, como ler um romance, ver um bom filme, conhecer outro lugar, fazer uma nova amizade, pelo menos, semanalmente.

Isto porque, a meu ver, em longo prazo, são as memórias que determinam a duração e a consistência do tempo passado. A rotina é certo tipo de “contra-memória” enquanto os novos conhecimentos são algo como “favor-memória”.

Quando, em curto prazo, se vive na rotina, pode-se, mesmo que lhe custe trabalho, lembrar vagamente dos acontecimentos da semana passada. Mais é quase impossível depois de um mês, denunciar os fatos verídicos referentes a cada semana. Mais difícil ainda é localizar, ao final de um ano, os acontecimentos referentes a cada mês. Ou você não foi surpreendido com o anúncio de que já faz um ano daquele fato surpreendente?

Ninguém pode deter a passagem do tempo. Entretanto, pode-se produzir memória através do transcurso do tempo. Devemos deixar de reclamar de não ter tempo pra nada, que queremos mais horas diárias ou dias incrementando os finais de semana. É preciso habituar-se a construir memórias, e com isso, dar consistência ao tempo que se vive e não deixa-lo passar inconsistentemente.

Por que uma viagem de um mês a outro país são lembranças que equivalem a um ano inteiro da sua vida rotineira? Porque estão cheias de memórias construídas, de relações, de conhecimento, de imagens mentais. Não se precisam viajar milhares de quilômetros para construir memória. É preciso iniciativa e força de vontade.

Reclamar não vai mudar as coisas, e se continuares a fazer as mesmas coisas esperando resultados diferentes, isso é, no mínimo, burrice. Lamentavelmente, a banalidade das informações que recebemos diariamente, não passam de memórias de hiper-curto prazo e precisam ser alimentadas mais e mais frequentemente. Depois de um ano gasto se atualizando no que as pessoas curtiram ou deixaram de curtir na rede, nada fica, não há minimamente, memória construída.

A questão então me parece, menos em relação ao decurso do tempo (o que não te concerne), e mais a o que estas a fazer com o seu tempo (o que deveria te concernir). 

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

a tentativa de construir uma discussão

Por Vinicius Libardoni

Mais do que textos dispersos, devaneios sobre qualquer coisa, isto representa uma tentativa de construir uma discussão. Ainda que sutilmente localizada sobre o âmbito da disciplina da arquitetura, há um intento claro de atravessamentos a partir de outras disciplinas de maneira a contribuir com a diversificação do debate.
Gregorio Marañón, médico endocrinologista, cientista, historiador, escritor e pensador espanhol, disse: “Aquele que somente se interessa por sua especialidade, nem ela mesma lhe interessa”. Ou seja, segundo este madrileño nascido em 19 de maio de 1887, devemos buscar conhecer um pouco de todas as áreas, pois, conforme diria o pessimista, não nos tornaremos sábios em quase nada e sim, ignorantes em quase tudo.
Concordo plenamente com Tschumi quando discorre em notas para uma teoria da disjunção arquitetônica[1], a respeito das estratégias de disjunção. O autor nos revela que tal estratégia não deve ser considerada um conceito arquitetônico, mais uma maneira através da qual, é possível entender a própria atividade de produção de conhecimento em arquitetura. Não se trata de ideias abstratas acerca de teorias sem pé nem cabeça ou, projetos sem começo nem fim. Incorporar outras disciplinas e atividades em nosso processo projetual não é, de modo algum, uma justificativa ou uma fuga da arquitetura mesma. Deve ser encarada como uma procura por uma arquitetura outra, que incorpore toda a complexidade do fenômeno arquitetônico e suas pluralidades. Parafraseando Tschumi “...o progresso da notação arquitetônica está ligado a uma renovação da arquitetura e dos conceitos de cultura que a acompanham”.

A busca por incorporar outros profissionais, que não aqueles tradicionais, atividades, olhares, pensamentos, teorias, exigências, usuários, na atividade de projeto de arquitetura, não devem ser conduzidos abstratamente pois, é um trabalho que se desenvolve no âmbito da disciplina da arquitetura, ainda que consciente de outros campos. É quase que um deslocamento, uma permeabilidade através de outras variáveis consideradas sobre a produção da arquitetura. Somente através de um posicionamento como tal, poderemos compreender a arquitetura como uma atividade humana altamente complexa como ela realmente deve ser compreendida.
Volto a afirmar na importância de diversificar a procura por conhecimento no momento que, quanto mais respiro tão apaixonante ofício, mais sinto a necessidade de estudar outras coisas, independentes da arquitetura. Independentes até certo ponto, pois, aquele que realmente está preocupado em construir e produzir conhecimento através do ofício conseguirá enxergar arquitetura em tudo o que observa.
Percebo também que, o aprendizado nunca é imediato. Nesta procura por entender o mundo e as coisas que com ele se relacionam, vivo uma busca incessante por conhecimento e aprendizado. Ontem era ainda uma pequena criança inapta para absorver temas de maior complexidade. Acho que, devemos viver com esta doce ilusão permanentemente, que ontem erámos incapazes de compreender certas coisas, hoje se é dedicados o suficiente para tentar absorver os temas que não entendíamos ontem e, finalmente, desejo, amanhã, ser sábio a respeito de tudo que um dia discutíamos.  


[1] Introdução: notas para uma teoría da disjunção arquitetônica. TSCHUMI, Bernard. Do livro, Uma nova agenda para  arquitetura, NESBITT, Kate. São Paulo, Cosac Naify, 2006.