Por Vinicius Libardoni
Gosto de ser errante. De zanzar pelas ruas em busca de uma perspectiva oculta. Por melhor se conheça um determinado entorno, a paisagem sempre nos surpreende a cada novo trajeto. Em São Paulo, isso ocorre de forma majestosa. Existe sempre mais uma “camada” de cidade além do que se pode observar, e assim, a cada passo um novo limite se apresenta, e vagando vai se construindo as imagens que compões a sua São Paulo. Eu tenho a minha, e se eu pudesse desenhá-la, seria um emaranhado de perspectivas com conexões nada coerentes, mas afinal, isso não é pra ficar no papel e sim, na memória.
Cruzando as colinas do Pacaembu, de cá pra lá, percebe-se o esforço do homem em construir uma paisagem. Como se não bastasse às ondulações naturais deste sítio, há em tudo que o homem faz uma sensação de competitividade. As casas que se apinham na encosta procuram rivalizar com as árvores e pedras que um dia compunham esta paisagem deslumbrante. Onde antes se avistava o horizonte delineado ao fundo do vale, percebe-se apenas mais um muro, mais uma esquina, e assim, outras camadas sucessivamente.
Descendo uma ladeira em curva, bem próxima ao Estádio Municipal, se encontra a residência Rio Branco Paranhos, uma joia da obra de Artigas do ano de 1942. Apenas dois anos antes, o Estádio do Pacaembu era inaugurado, lá estava o presidente da República (Getúlio Vargas) sendo vaiado constantemente, pois, nem mesmo os oito anos que se passaram foram capazes de apagar aquele episódio da Revolução Constitucionalista de 1932.
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| Residência Rio Branco Paranhos, Arq. Vilanova Artigas, 1942. Foto do autor. |
Escalando as colinas do lado de lá fui perder-me entre as ruas nordestinas - Alagoas, Ceará, Bahia, Sergipe e Pará. A residência Luiz da Silva Prado, projetada por Gregori Warchavchik encontra-se oculta e quase passa despercebida lá de cima da Rua Bahia onde antes, pousava soberana emoldurada na paisagem. Daquela foto do Congresso da Habitação de 1931 em frente a casa, resiste o testemunho no estilo dos homens, que mais parece cena de filme americano dos anos 30 que da própria paisagem urbana, ainda incipiente, da cidade de São Paulo.
Descendo a direita ao final da Rua Bahia encontra-se a Rua Itápolis, e no número 961 desta rua está situada a casa Modernista de Warchavchik. Sua inauguração sucedeu no dia 26 de março de 1930 em meio a uma ousada festa com uma grande exposição de arte moderna articulando arquitetura, design e artes na tentativa de promover uma ambiência moderna naquele lugar ainda de caráter tão rural.
Descendo a direita ao final da Rua Bahia encontra-se a Rua Itápolis, e no número 961 desta rua está situada a casa Modernista de Warchavchik. Sua inauguração sucedeu no dia 26 de março de 1930 em meio a uma ousada festa com uma grande exposição de arte moderna articulando arquitetura, design e artes na tentativa de promover uma ambiência moderna naquele lugar ainda de caráter tão rural.
A vanguarda da cidade foi convocada e participou integralmente da exposição que marcou época e representou uma tomada da identidade moderna para a burguesia generalizada da sociedade. Cabe aqui publicar um momento de indignação. Que pena que aqueles anos passaram, quando a elite econômica (gente de poder) também era a elite intelectual da sociedade. Não que isso seja algo agradável, porém, atualmente, quanto mais subimos de classe social pior é o resultado.
As torres de apartamentos que se erguem nas colinas do Pacaembu hoje em dia, procuram ainda expressar aquela modernidade tão evidente na obra de Warchavchik. A banalidade do bonde da arquitetura contemporânea passa desgovernada e sem freios. O branco da pintura de suas paredes representa, pelo menos pra mim, uma alma penada perdida na atualidade. Uma tentativa de interpretação daquela arquitetura que marcou a modernidade da burguesia paulista dos anos 30. Mais uma tentativa tão falha e tão falsa. E se o branco relativiza o purismo de Warchavchik, as janelas de tais edifícios mais parecem lápides de um tumulo. Um túmulo onde está enterrada a nossa capacidade de produzir uma boa arquitetura.
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| "Túmulos", edifícios em Higienópolis. Foto do autor. |
E não é só isso que se encontra sepultado atualmente. Foi-se a época onde o ambiente bucólico da intelectualidade convivia nos espaços coletivos urbanos em uma relação de troca e encontros que jamais voltaria a acontecer nas mesmas dimensões. O teatro esvaziou-se, os cinemas de rua foram fechados, os bares da boêmia estão tomados de gente sem opinião e a imensa quantidade de má arquitetura produzida nas nossas cidades é recebida tão acrítica quanto austeramente.
Vagando pelas ruas, acabado me perdendo em ideias e no fim, falando demasiada besteira. Mais se atravessar as colinas do Pacaembu me levou do entusiasmo ao abatimento, chegar às ruas de Higienópolis me trouxeram de volta a vida. Reencontrei o Louveira e topei com o Prudência, o Lausanne. Ah, são tão belos os caminhos sinuosos que devaneiam fugindo entre arvores e pilotis encaminhando os indivíduos da rua a sua morada.
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| Louveira, arq. Vilanova Artigas.1946. Foto do autor. |
Depois disso voltei pra casa, tranquilo.



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