sábado, 24 de março de 2012

o centro de São Paulo e os Jardins de Tântalo


“O consumo é superficial, portanto torna as massas infantis; o rock é violento, não verbal, portanto põe fim a razão; as indústrias culturais são estereotipadas, portanto a televisão embota os indivíduos e fabrica moluscos descerebrados. O feeling e o zapping esvaziam as cabeças; o mal de qualquer modo é o superficial, sem que se chegue a desconfiar nem por um segundo que efeitos individuais e sociais contrários às aparências, possam ser a verdade histórica da era da sedução generalizada.”

Gilles Lipovetsky em Império do efêmero. 



João Braga e Vinicis Libardoni 

De caráter extremamente superficial, a maioria dos seres humanos sente necessidade de oferecer uma explicação para todas as coisas. Neste processo, produzem, evidentemente, as coisas de maneira coletiva, social. Projetam-nas para fora de si e, pouco a pouco esquecem de que foram criadores desses seres, passando a acreditar no inverso. Ou seja, não se reconhecem nesse Outro. Em latim, “outro” se diz: alienus. Feuerbach chamou esse fato de “alienação”.

Feuerbach foi um filósofo alemão que, abandonou os estudos de teologia para se tornar aluno de Hegel em Berlim. Posteriormente afirmou que Hegel descrevia o homem de ponta-cabeça e que teríamos que entendê-lo de cabeça pra baixo. Enfim.

Parece que tudo está virado do avesso mesmo. Veremos a seguir como essa afirmação é evidente.

Porque toda esta história de alienação veio parar aqui, onde se procura discutir sobre a situação das áreas centrais da cidade de São Paulo? O que mais me instiga é que a população desta cidade, e do Brasil todo, vive naufragada num mar de alienação social. Estão completamente alienados dos problemas, reais, presentes nas nossas cidades. A tecnologia, a rotina massiva (de ocupação ou desocupação – tanto uma quanto a outra resultam em uma “ocupação” intensa do indivíduo) ou somente a inércia que controla a massa brasileira são uns dos fatores de alienação. Sentem preguiça de fazer algo só de penar em fazê-lo. Onde já se viu fazer uma manifestação na rua? - Isso é coisa de desocupado (pensam os ocupados!)

Somente através deste limbo moroso que impregna nossa crescente população economicamente ativa, podemos compreender porque a ideologia é tão importante para manter a perversa máquina estatal e seu rebanho burguês. Este discurso ideológico, que todos (quase todos) somos reféns, é promovido pela mídia de caráter superficial que, causa um imenso processo erosivo na mente dos nossos cidadãos. “A sedução distrativa da mídia só pode sujeitar a razão, enviscar e desestruturar o espírito”.

Chega de tanta enrolação, e vamos ao que interessa. Esta discussão (isto tudo realmente tinha como finalidade gerar uma discussão, enfim, torna-se quase um monólogo), apareceu quando das leituras sobre o centro de São Paulo. A imagem ideologicamente construída e predominante atualmente define este espaço nobre da cidade como, decadente, degradado e desocupado.

A denominação de determinadas áreas como “cracolândia” é o fim da picada! Então vamos generalizar tudo e enfiar no mesmo saco: no rio de janeiro tudo é favela, em Nova York só existem arranha-céus, e na Cidade do México, quando você pede se alguém tem fogo, você é metralhado no mesmo instante. Cracolândia é o c@$%&¿*!!!

E depois de vender esse discurso ideológico podre para toda a população, acredita que este discurso pode legitimar suas ações de “revitalização”. Revitalização significa “re-vitalizar”, ou seja, dar vida novamente. Dar vida novamente? O centro de São Paulo é um dos lugares mais “vivos” da cidade! Local de trabalho de milhões de habitantes! A densidade do centro durante o meio dia é 400% maior que a meia noite! O que precisa ser feito, aliás, o sucesso de qualquer plano de revitalização de áreas centrais demanda um programa habitacional, um programa habitacional para a população de baixa renda.

A burguesia iniciou sua evasão para o seu “centro novo” no corredor sudoeste e passou a chamar o centro da cidade de “centro velho”. Flávio Villaça afirma que as classes dominantes abandonaram o centro da cidade “alegando que estava se deteriorando, quando na verdade essa “deterioração” é efeito e não causa do abandono. A burguesia diz que os centros de nossas cidades estão decadentes quando na verdade, para as classes dominadas, eles estão em ascensão, não em decadência”.

A ocupação do centro pelas massas, que colaborou com a ideia de “decadência”, é a sua maior riqueza. Essa diversidade, multiplicidade e acessibilidade absoluta promovem a ideia de ascensão para as massas, para as quais o centro nunca deixou de ser o centro. É lá que está a maior oferta de empregos para esta população (7,5 empregos/habitante). É no centro que se localizam suas lojas, seus cinemas, seus profissionais liberais. E não acreditem que eles pagam barato ou que moram de graça para estarem lá. Pagam para morar no centro, e pagam caro. Pagam caro e vivem em situações desumanas, encortiçados em espaços insalubres e pagando uma fortuna! Percentualmente mais caro que em bairros como Pinheiros e Vila Madalena (por metro quadrado). Eles estão ali porque precisam, e mais, porque amam aquele lugar.

Para a população de baixa renda a diversidade social é ótima, por isso gostam tanto do centro. Dizem que Habitação de Interesse Social – HIS “desvaloriza” um edifício ou uma região para a classe média e média alta. Eu bem que gostaria de ouvir alguém falando isso pessoalmente, eu até espero que isso aconteça em um dia que esteja bem inspirado. Fabuloso! Se “desvaloriza” melhor ainda! Espero que o poder público perceba nisso uma verdadeira oportunidade de promover intensamente HIS no centro, pois assim os mecanismos de especulação, para a promoção de Habitação para outras faixas de renda, possa ser minimante controlado.

O centro é espaço de convívio, de diversidade social, de possibilidades e multiplicidade, quem quiser se isolar é que se mande pra china ou para os jardins de Tântalo, não no centro de São Paulo. Não podemos desperdiçar um espaço dotado de infraestrutura, serviços e equipamentos, um espaço que é da massa por direito, e agora é dever do Estado viabilizar isso, seja através de instrumentos legais, políticas públicas, formação técnica e profissional, fomentando empresas mistas especializadas ou até através de ideologia, seja como for, o centro é de todos!

LUZ, por Left Hand Rotation. Link original: http://vimeo.com/32513151

quarta-feira, 7 de março de 2012

The Blues Brothers, um verdadeiro musical


Por David João Maia e Samuel R. Rocha

No dia cinco de março de mil novecentos e oitenta e dois, John Adam Belushi, como se diz por ai, “foi dessa para uma melhor”. Então com trinta e três anos, assim como jesus cristo, o célebre comediante do Saturday Night Live (John e não Jesus) meteu-se uma speedball na veia. O barbudo ali também sofreu com objetos pontiagudos, os remotos pregos e coroas de espinhos da modernidade são a cocaína e heroína misturadas no tal da “bola veloz”.

Belushi deixou este mundo, e o quarto do Chateau que alugava em Los Angeles, depois de injetar aquela bomba. Posteriormente, descobriu-se que a dose cavalar não tinha sido “acidentalmente” administrada. Cathy Smith, uma groupie safada (perdoem-me o pleonasmo, mais cabe aqui para intensificar o adjetivo), foi condenada pelas “bolas velozes” que arrebentaram nosso fantástico Jake Blues.

A “doidona”, mais tarde acabou declarando: “I killed John Belushi. I didn’t mean to, but I am responsible”. Conheceu John através dos Stones, acostumada a tratar com gente grande, Ron Wood e Keith Richards, Belushi, que não era um viciado em heroína, droga a qual, pouco usava antes do terrível acidente, se tornou uma espécie de Mia Wallace (Pulp Fiction) nas mãos da viciada salafrária. Entretanto, o “bunda mole” (Robin Willians) que estavam na cena do crime, não dispunha de uma bela injeção de adrenalina para cravar-lhe no meio do peito e o caráter da própria Cathy Smith pouco se assemelha ao admirável Vincent Vega, interpretado por outro John, o Travolta.

Dizem que até Robert de Niro havia comparecido no apê de Belushi naquela noite, estaria ele procurando por um Chateau? (I’m looking for a Chateau, 21 rooms but one will do). Uma coincidência plausível, como a de jesus cristo, além de que de Niro e Belushi tivessem se encontrado naquele maldito Chateau naquela noite, algo na carreira dos dois é que me emociona.

No fatídico ano de mil novecentos e oitenta, enquanto Robert rodava cenas de “Raging Bull” de Martin Scorsese, John gravava o musical “The Blues Brothers”. Tal comentário se deve ao fato de que, estes dois filmes são uns de meus favoritos, cada um no seu estilo. Robert de Niro se saiu melhor no Touro Enraivecido ganhando o seu único Oscar como melhor ator e também se saiu melhor naquela noite, saiu vivinho da silva daquela porcaria de Chateau amaldiçoado.

The Blues Brothers apareceram por primeira vez no dia 22 de abril de 1978 como convidadosl no programa Saturday Night Live. Tudo deveria parar por ai, porém, quanto mais as músicas tocavam na rádio, mais crescia a vontade de ir adiante e de gravar um álbum da banda. Briefcase Full of Blues foi lançado no mesmo ano de mil novecentos e setenta e oito. Um sucesso total nas paradas, chegou ao número um no Bilboard 200 e não se ouvia nada mais que “Rubber Biscuit” (Charles Johnson e Adam R. Levy) e “Soul Man” (Isaac Hayes e David Porter).

O filme “The Blues Brothers” feio para coroar o feito de Jake e Elwood Blues (John Belushi e Dan Aykroyd). Dirigido por John Landis, que também foi o roteirista em conjunto com Dan, The Blues Brothers é um dos melhores musicais jamais produzidos de R&B. Além dos Blues Brothers o filme trás uma série de grandes músicos, verdadeiras lendas do jazz, funk, blues e rock n’roll. Uma comédia permeada por verdadeiros números musicais a la Chicago.

James Brown, o rei do funk, faz uma participação pra lá de cômica e empolgante como “Reverendo Cleophus” na igreja “triple rock” repleta de negros pra lá de animados.

John Lee Hoocker aparece interpretando a si mesmo, cantando uma de suas melhores composições (boom boom), no mesmo ano que foi induzido ao “Blues Hall of Fame”(1980), então com 63 anos. Com seu blues leve e penetrante aparece em meio à multidão, em um subúrbio de Chicago que mais se parece com a vinte e cinco de março de São Paulo.

Aretha Franklin comparece em uma das cenas mais cômicas do filme, quando no seu estabelecimento com o sugestivo nome de “soul food café”, Jake e Elwood fazem seus respectivos pedidos de Blues Brothers: “Some toasted white bread, dry” (para Elwood) e “Four fried chickens and a coke” (para Jake). Aretha interpreta estupidamente bem e canta melhor ainda a musica “Think” (You better think (think)).

Ray Charles é sem dúvida o ponto alto dentro do The Blues Brothes, exatamente no meio do filme, é o cume do próprio musical. Divertido e transpirando musica, Ray trabalha em uma loja de equipamentos musicais usados, onde os Blues Brothers pretendem adquirir seus badulaques. Uma verdadeira performance musical, Ray Charles compartilha com os Blues Brothers o verdadeiro estopim do hit “Shake a Tail Feather” já tocada antes pelo grupo “The Five Du-Tones” e também por “James e Bobby Purify” quando chegou ao número 25 das paradas. A essência da musica dos Dancing Days, na versão de Ray com os Blues Brothers são incluídas as danças: the twist, the monkey, the frug e the mashed potato performance emblemática de Jake e Elwood e também do grupo Crew tomando toda a rua em uma cena que ficou gravada na memória de todos que assistiram ao musical.

Posteriormente um bando de jovens loiros, os Hansons, gravaram um verdadeiro pastiche do hit Shake a Tail Feather” com a sua Thinking ‘bout Somethin’, com o mesmo cenário o antigo Ray’s Music Exchange (agora Tay’s Music Exchange). Todo e qualquer sucesso de tal performance, se deve a toda originalidade presente no filme The Blues Brothers, ainda assim, me parece uma homenagem de relativo apreço por parte dos branquelos.

Cab Calloway faz uma de suas melhores performances já filmadas no show que deveria ser a abertura ao grande show do Blues Brothers no filme. Tornou-se um musical cheio de vigor e de um swing jazzístico fora de serie. Iniciando com a sua Minnie the Moocher, primeiramente gravada quase cinquenta anos antes, em 1931 por ele mesmo e sua orquestra, configurando um dos grandes sucessos do Jazz americano e vendendo mais de um milhão de cópias. Parece que não havia se passado nem um minuto desde seu sucesso prematuro, quando o auditório inteiro canta em coro junto com Cab Calloway e aplaude de pé, mais do que uma cena de um filme musical, foi, a meu ver, uma verdadeira emoção que a plateia vivenciou naquele dia. Seria normal que depois de um verdadeiro show a plateia não tivesse qualquer reação perante os Blues Brothers.

Entretanto, cantando “Everybody needs somebody to love” (I need you, you, you…) o auditório se levanta. Um hit impossível, de carregado qualquer um (everybody) com a música. The Blues Brothers são comédia, emotividade, empolgação, ritmo e pulso, enfim, são “blues brothers”. Como é a segunda música do show “Sweet home Chicago” composta pela lenda “Robert Johnson”. A essência do blues naquele filme: simplicidade, a lenda: Robert Johnson, a cidade: Chicago e The Blues Brothers.

Finalmente, para encerrar o grande musical não poderia faltar o rei do rock. Jailhouse Rock, música e filme de Elvis Presley de 1957. Encenada no estilo Johnny Cash, a galera do xilindró faz uma verdadeira festa como no Carandiru de Rita Cadilac. The Blues Brothers é, sem dúvida, um dos melhores musicais já produzidos pela grande tela. Merece e vale a pena ser visto e revisto.

É de uma dupla personalidade, como o show de Cab Calloway, onde o figurino é somente imaginação ou toda aquela interpretação de Curtis é fruto da ficção do cinema? Os interpretes, vivenciando verdadeiras lendas da música americana do século XX e pessoas normais paralelamente, transformam as cenas em uma espécie de miragem musical, uma linha tênue separa o sonho da realidade, talvez isso é o que transfere a película tanta emotividade e pulsação.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

uns versos





“Estava à toa na vida 

O meu amor me chamou 

Pra ver a banda passar 

Cantando coisas de amor” 



Frequentava a pré-escola no longínquo ano que nem me lembro de quando. Sempre fui tímido. Se virar sozinho era uma lei lá em casa. Mais nem sempre isso era possível para um garoto de seis anos. A tia da escola recomendou que trouxéssemos um par de versos de casa, pra sei lá o que fazer naquele dia primaveril e ensolarado. Mal sabíamos falar corretamente e a dona nos solicita encontrar versos, eu ia saber lá o que isso significava.

Quando não se poderiam resolver as coisas facilmente, ou arduamente, me colocava a chorar, timidamente baixo, e assim se configurava a lamentação mais dolorosa, porque todos sabiam que algo muito profundo poderia estar acontecendo, mamãe se tornava uma pessoa fantástica que ajudava a combater nossos males mais controversos. Entretanto, naquele dia, não eram conflitos existenciais que me perturbavam, somente não encontrava versos em lugar algum. Pouquíssimas vezes pedi ajuda para meus genitores nas tarefas de casa, mais aquela não era uma tarefa fácil.

É horrível quando uma criança se desespera na tentativa de decodificar uma mensagem muito complexa e um adulto, com um olhar atônito, acha um absurdo. Era uma enorme aberração a, que me fora imbuída, de encontrar versos. Não parecia tão complexo para meu pai. Ainda escorriam lagrimas silenciosas pelos meu rosto quando, decidido, meu velho me levou defronte a vitrola da casa. Vasculhou cuidadosamente entre os compartimentos que separavam seus discos. Na verdade eu nunca entendia porque daquela segregação, eram todos discos, eles deveriam estar todos juntos, sem dúvida.

Em meio aquela organização hierarquizada por sei lá o quê, saltou um disco de capa rubra, junto com o mestre, aprendi o que significavam versos e onde encontra-los, observando atentamente ele ditando enquanto acompanhava com o dedo indicador as linhas escritas, para a professora, os tais “versos”.

De toda esta história lembrava-me vagamente, uma memória já bastante sutil. E como é bom reencontrar-se com lembranças tão belas e então, delineá-las no papel. Fixando efemeramente no físico e permanentemente na memória mais sólida hoje que naquele tempo tão distante.

Versos, versos, versos eu repetia na memória, naquela época era como falar sem os outros ouvirem. “Então aqui estão os versos!” - pensei comigo mesmo. Era como achar um tesouro perdido, encontrar um amor, o primeiro amor. Aqueles eram versos para meu velho, aquilo eram versos para seu filho. As lagrimas deram lugar a um brilho estonteante, um sorriso enorme se contorcia na tarefa de copiar aqueles versos no caderno. A caligrafia deve dizer muito sobre cada indivíduo, aquela que sempre me acompanhou, é esforçada, controlada, mais é, por natureza, irregular, natural, espontânea, naquele dia, ela representava a essência do meu ser, não tenho dúvidas.

Ainda quando copiava, o “tum” que fazia o amplificador quando era ligado retumbou pela casa. A marchinha começou e um filme passava na minha imaginação, a rua, a banda, os personagens, tudo era imagem, tudo era psicologicamente representado na minha cachola. Que construção maravilhosa, que aprendizado inigualável, que infância gostosa, a melhor tarefa de casa que pude realizar.

Toda esta história é romântica, feminina e lírica, como “A banda”. É imaginada e real. Uma lembrança que se acendeu enquanto lia as páginas de “Noites Tropicais” de Nelson Motta. Que descreve apaixonadamente aquele Festival da Música Brasileira da Record no ano de 1966. Travava-se um duelo entre “música brasileira” e “música jovem”. Duas músicas sagraram-se campeãs por empate técnico, que muito mais tinha de empate social. Esta de Chico Buarque, e Disparada de Theo e Vandré, como descreve Nelson Motta: “a primeira uma marchinha lírica, na melhor tradição brasileira, feita de delicadeza e desencanto, sobre a magia de uma música que passa pela rua e sua alegria fugaz, a outra uma moda de viola estilizada, com uma letra de ritmo e sonoridade vibrantes, metaforizando as lutas de um boiadeiro conta o dono da boiada”.

Que dias belos se viviam quando se discutia música brasileira pelas ruas em todo o país, como se fosse futebol. Um dia que a paixão nacional era outra, um dia que aprendi o significado de um verso.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

o cinema que desconhecemos

Não devemos mais ver estes filmes que já não dão lugar a nenhuma classe de crítica porque, de certo modo, se destroem a si mesmos desde dentro[1].

Jean-Luc Godard, Nicholas Ray, Samuel Fuller. Estes poderiam ser homens comuns, ou incomuns, depende da sua índole, humilde leitor. Seriam simplesmente nomes abstratos. Desvinculados de qualquer figura conhecida.  Para seus ouvidos atentos e vossa cultura superficial são apenas palavras, ou melhor, letras conectadas ao acaso que, fornecem um fonema estrangeiro com certa coerência fonética. Nada mais.
Pois bem. Ditos fonemas são, de fato, grandes nomes do cinema mundial. Com toda a clareza que me cabe, a partir do meu humilde conhecimento adquirido recentemente estudando a historia do cinema, posso afirmar com veemência que ditos nomes, não passariam despercebidos pelos curiosos olhos dos apaixonados pela cultura do cinema que, um dia folhavam atentamente as primeiras edições daqueles estupendos periódicos publicados com o nome de Cahiers du Cinéma.
Imagem do filme Pierrot le fou, 1965 de Jen-Luc Godart.
Tenho lástima daqueles que se julgam conhecedores do tema, e que passam horas discutindo o último filme exibido nas salas de shoppings centers.  Aqui posso, ligeiramente, ressaltar duas questões. A primeira, a respeito de tais “salas de cinema”. Estas, já não são portadoras do encanto das salas outras, aquelas quais, previamente permeavam e ambientavam as ruas de nossas cidades. Logo, o ato de “ir ao cinema” desapareceu, e com isso, grande parte da nossa cultura urbana da grande tela. A segunda, me referindo aos entendedores de cinema, segundo é claro, por eles mesmos. Um pouco de humildade os cairia à perfeição. Antes de julgar, do auto de toda sua sabedoria, ao ultimo filme de Allen, Tarantino ou Malick, deveriam, antes de qualquer pensamento crítico (tenho até ressentimento de utilizar a palavra “crítica” neste contexto tão pobre), poderiam assistir a Pierrot le Fou, e acatar o sutil significado da frase de Pierrot: assista Johnny Guitar, é instrutivo. Tal, excelente filme, já deverá tomar sua atenção por pelo menos, um considerável tempo.
Cena de Johnny Guitar, 1954 de Nicholas Ray.
Johnny Guitar é uma obra prima do cinema americano da primeira metade do século XX. Como escreveu Jean Wagner em seu livro sobre o diretor Nicholas Ray[2], “Se um cineasta merece ser chamado de ‘autor’, este é Nicholas Ray. Sobre o filme anteriormente citado ele coloca “Se olharmos com detrimento, o filme não está bem construído, mais funciona de um modo admirável. Tudo se encaixa como em uma maquinaria bem engraixada, enquanto que a mise en scène é todo o contrário, cheia de interrupções e mudanças de ritmo, mais sem nenhuma sequencia inútil, sem nenhuma sequencia oca. O Filme 'manca' e este é seu primeiro encanto. Sabe tirar partido da sua própria imperfeição.”
A influência desta obra maestra no cinema que se desenvolveu a partir de então, é inegável. Nicholas Ray é um dos grandes, um monstro do cinema. Jean-Luc foi um dos responsáveis, naquele movimento contestatário que ficou conhecido como Nouvelle Vague, por resgatar aos grandes nomes do cinema americano da primeira metade do século XX, seja através de seus filmes ou de sua participação crítica nos Cahiers du Cinéma. Há um documentário maravilhoso chamado “Le Dinosaure et le bébé”, na verdade um episódio do programa “Cinéastes de notre temps” onde o jovem cineasta francês passa horas conversando com Fritz Lang, o qual, aparece em seu filme Le Mepris, interpretando a si mesmo, um velho diretor americano em decadência, embora a visão de Godard sobre o maestro alemão fosse muito diferente disso, pois como aparece no documentário acima citado,  Jean-Luc aprendeu muito sobre a mise en scène com seu admirado diretor. Como se não bastasse a sutil referência a partir de Godard, podemos citar várias outras apropriações de outros grandes filmes e/ou diretores, entretanto, nos contentemos com o grandíssimo Johnny Guitar.
Johnny Guitar contém uma declaração de amor das mais belas da história do cinema, “onde convive a expressão do desespero, a materialidade do tempo que passa e o amor de um homem por uma mulher” (WAGNER, Jean. 1994). Este admirável diálogo foi retomado por Jean-Luc Godard no filme Le petit Soldat e também por André Téchiné em Barocco.
Pedro Almodóvar, diretor que admiro escandalosamente, se apropria desta  cena, uma das mais emblemáticas da filmografia de Ray em seu filme Mujeres al borde de um ataque de nervios (1988), seu segundo filme produzido pela companhia El Deseo, fundada anos antes em conjunto com seu irmão Agustín, fato tal que permitiu uma primeira onda de reconhecimento internacional de sua obra, mais evidentemente na França.
Cena do filme Mujeres al Borde de un ataque de nervios, 1988 de Pedro Almodóvar.
As referências arquitetônicas que Ray, profundo conhecedor da obra de Frank Lloyd Wright, utiliza em Johnny Guitar são evidentes e compostas de modo magistral. As cores, texturas, e o caráter dos espaços que aparecem neste filme devem saltar aos olhos mais atentos e admitir críticas fantásticas daqueles que estudam profundamente grandes obras do cinema mundial. Vale ressaltar, se não me falha a memória, que o diretor esteve estudando em Taliesin West e coincidiu com Wright com o qual “trocava figurinhas” cotidianamente. A partir de então sempre exaltou a arquitetura, sobre a qual dizia: “a arquitetura é a espinha dorsal de todas as artes”. Com tudo isso, podemos entender a relação que está exposta sempre em sua filmografia a respeito do espaço retratado. Ray organiza a mise em scène a partir da decoração, da montagem do entorno, a disposição das coisas e suas cores e texturas. Ele próprio dizia: “a minha visão de mundo é a de um arquiteto”.
Concluindo, não deveria deixar de sugerir algo. Pois já que falamos de Godard, aquele que resgatou muitos dos mitos do cinema americano a partir da segunda metade do século XX, escute atentamente as palavras que Samuel Fuller, resgatado e exaltado na obra do diretor francês (Pierrot le Fou, 1965), quando o mesmo responde a pergunta: qual o significado exato de cinema? Ele logo diz, “The film is like a battleground, is love, hate, action, violence and death, in one word, emotion”.

Pierrot (esquerda) e Samuel Fuller (direita) em Pierrot le fou, 1965.
 Mais do que isso, só abrindo os seus olhos.



[1] Jean Baudrillard, La ilusión cinematográfica perdida, tradução livre do livro El complot del arte. Buenos Aires, Amorrotu, 2007.
[2] Jean Wagner, Nicholas Ray. Editions Rivages ; Ediciones Cátedra, S.A., 1994, Madrid.

domingo, 15 de janeiro de 2012

peitos explosivos, protótipos insufladores de ego

Jane Mansfiled exibe seus atributos ao lado de Sophia Loren; Publicidade "A pasta russa".

A Anvisa abre processos contra as empresas importadoras de próteses de silicone fabricados na França pela empresa Poly Implant Prothèse - PIP, e o governo brasileiro anuncia que todas as mulheres que turbinaram seus peitos com esta arma explosiva podem substitui-los por outros menos perigosos - mais não menos provocativos. 
Desde que começaram a ser detectados casos de ruptura dos implantes, todos os países, inclusive o Brasil começou a aplicar medidas para tentar controlar estas “bombas-relógios” disfarçadas de saco de silicone que estão cuidadosamente aplicadas em milhares de peitos avantajados que desfilam por nossas praias neste verão. Seria um caos se todas aquelas belas silhuetas andassem explodindo, ainda mais nos momentos impróprios para isso – justo quando são realmente colocadas a prova. 

Segundo matéria publicada no jornal El País, “...as ultimas informações sobre as próteses são que os implantes conteriam um aditivo de carburantes, que também empregam-se na construção de matérias de navios e em componentes eletrônicos”. O que significa que, através da aquisição destes novos peitos, houve uma transmutação do peito avantajado do século XX para uma espécie de parafernália eletrônica do século XXI além de objeto de consumo. 

Em números informados pelo periódico espanhol, no mundo poderiam existir mais de 500.000 mulheres portadoras dos seios PIP. Meio milhão de aterradoras tetas explosivas. Em nosso país, a partir da ultima década, este acessório passou a ser visto como mais uma peça no vestuário felino. Mamãe, mamãe, eu quero por um daquele ali, diz uma mocinha de quatorze anos assistindo a última novela das nove. Enquanto a economia brasileira foi se fortalecendo e o poder aquisitivo da população foi aumentando estratosfericamente, mais próteses foram sendo instaladas inflacionando o padrão, até então tão categórico, da mulher brasileira. 

E agora o risco aumenta, pois com a economia aquecida, embora isso não se deva a quantidade de seios "ciborgues" presentes no mercado de trabalho, muitas portadoras destes protótipos insufladores de ego estão viajando por ai. Poderia ter um aspecto positivo, que elas possam estourar seus peitos bem longe dos nossos olhos, porém, o assunto é realmente delicado, diz-se por ai que uma dezena de mulheres estão estourando durante voos comerciais. Macaco Simão precisa, com urgência, saber disso. 

Mais no país da piada pronta, tudo é maravilha, lábios, peitos, bundas, tudo e todos tem o direito de dar uma incrementada no visual segundo uma pequena incrementada no orçamento. Entretanto, em breve isso tudo pode estourar, a economia, o crescimento e essa sensação de oba-oba. A inflação sobe e as tetas estouram. Já é algum sinal e não é bem, digamos, positivo. Tomemos cuidado com toda esta onda de peitos tipo air-bag com data de validade e quem sabe possamos um dia passear pela praia e se encantar, e que a beleza natural não seja apenas das nossas paisagens.


sábado, 14 de janeiro de 2012

ho-ba-la-lá de Marc Fischer


Vinte e quatro horas desde que abri o livro. Talvez umas dez horas de leitura. Quanto anos Marc Fischer dedicou a João Gilberto para presentear alguns leitores com um sonho compartilhado? A história da bossa nova é mesmo triste na figura mais representativa do coração da beleza.

Uma história que tinha tudo pra ser uma obra detetivesca, inspirada em Sir Conan Doyle. Mais é uma história real, tão real quanto a esta própria declaração de amor a Bossa Nova, ao Brasil e, principalmente, a João.

Um ser único e, a meu ver, incompreendido. Por esse Brasil afora, quem realmente sabe quem é João? Da geração nascida nos anos oitenta até os dias de hoje são exceções aqueles que por ventura já ouviram “Ho-ba-la-lá”.

Um individuo sozinho em busca do sonho. Reconhecimento, popularidade, isso não importa, seu compromisso é com a música, com as suas próprias convicções. Tachar alguém de tantã é muito fácil, fazemos isso toda hora, tanto quanto queremos “matar alguém” sem nunca ter tido coragem de pisar em uma simples formiga. Nosso umbigo acaba sendo o centro do mundo. E a opinião comum diz o que é certo e errado neste mundo de dualidades abestalhadas.

João está certo. Não é doido, não é depressivo nem depravado. Pode ser sensível demais. Ele está certo, seu compromisso é consigo mesmo, com a música, com a beleza verdadeira. Um gênio. A Cultura brasileira deveria abraçar a causa, um patrimônio da humanidade reconhecido em cada rincão do planeta não pode ser deixado de lado assim, a mercê do tempo. Um músico que é aplaudido por vinte e cinco minutos ininterruptos lá no Japão e que pouco toca nos rádios brasileiras. Entretanto, doa-se milhões para se fazer um “blog”. Ainda fosse Elis Regina.

João não quer que se façam documentários sobre ele, a figura João não é o que importa, se ele pudesse, ensinaria todos a cerrarem os olhos quando se escuta “chega de saudade”.

Medo. É o que sinto quanto penso no momento em que ele se vá. Medo do que a mídia venha a fazer com sua figura enquanto ele, se pudesse, imploraria para que a música, que preenche seu apartamento no Leblon por quase doze horas diariamente, pudesse soar sem nenhuma interferência. Para o mundo todo poder ser tocado, preenchido, completo, satisfeito.

Mais tudo trata-se de um anseio. E anseio é coisa que ninguém pode apanhar. 


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Construindo novas perspectivas

Por Vinicius Libardoni

Gosto de ser errante. De zanzar pelas ruas em busca de uma perspectiva oculta. Por melhor se conheça um determinado entorno, a paisagem sempre nos surpreende a cada novo trajeto. Em São Paulo, isso ocorre de forma majestosa. Existe sempre mais uma “camada” de cidade além do que se pode observar, e assim, a cada passo um novo limite se apresenta, e vagando vai se construindo as imagens que compões a sua São Paulo. Eu tenho a minha, e se eu pudesse desenhá-la, seria um emaranhado de perspectivas com conexões nada coerentes, mas afinal, isso não é pra ficar no papel e sim, na memória.

Cruzando as colinas do Pacaembu, de cá pra lá, percebe-se o esforço do homem em construir uma paisagem. Como se não bastasse às ondulações naturais deste sítio, há em tudo que o homem faz uma sensação de competitividade. As casas que se apinham na encosta procuram rivalizar com as árvores e pedras que um dia compunham esta paisagem deslumbrante. Onde antes se avistava o horizonte delineado ao fundo do vale, percebe-se apenas mais um muro, mais uma esquina, e assim, outras camadas sucessivamente.

Descendo uma ladeira em curva, bem próxima ao Estádio Municipal, se encontra a residência Rio Branco Paranhos, uma joia da obra de Artigas do ano de 1942. Apenas dois anos antes, o Estádio do Pacaembu era inaugurado, lá estava o presidente da República (Getúlio Vargas) sendo vaiado constantemente, pois, nem mesmo os oito anos que se passaram foram capazes de apagar aquele episódio da Revolução Constitucionalista de 1932.

Residência Rio Branco Paranhos, Arq. Vilanova Artigas, 1942. Foto do autor.
Escalando as colinas do lado de lá fui perder-me entre as ruas nordestinas - Alagoas, Ceará, Bahia, Sergipe e Pará. A residência Luiz da Silva Prado, projetada por Gregori Warchavchik encontra-se oculta e quase passa despercebida lá de cima da Rua Bahia onde antes, pousava soberana emoldurada na paisagem. Daquela foto do Congresso da Habitação de 1931 em frente a casa, resiste o testemunho no estilo dos homens, que mais parece cena de filme americano dos anos 30 que da própria paisagem urbana, ainda incipiente, da cidade de São Paulo.

Descendo a direita ao final da Rua Bahia encontra-se a Rua Itápolis, e no número 961 desta rua está situada a casa Modernista de Warchavchik. Sua inauguração sucedeu no dia 26 de março de 1930 em meio a uma ousada festa com uma grande exposição de arte moderna articulando arquitetura, design e artes na tentativa de promover uma ambiência moderna naquele lugar ainda de caráter tão rural.

A vanguarda da cidade foi convocada e participou integralmente da exposição que marcou época e representou uma tomada da identidade moderna para a burguesia generalizada da sociedade. Cabe aqui publicar um momento de indignação. Que pena que aqueles anos passaram, quando a elite econômica (gente de poder) também era a elite intelectual da sociedade. Não que isso seja algo agradável, porém, atualmente, quanto mais subimos de classe social pior é o resultado.

As torres de apartamentos que se erguem nas colinas do Pacaembu hoje em dia, procuram ainda expressar aquela modernidade tão evidente na obra de Warchavchik. A banalidade do bonde da arquitetura contemporânea passa desgovernada e sem freios. O branco da pintura de suas paredes representa, pelo menos pra mim, uma alma penada perdida na atualidade. Uma tentativa de interpretação daquela arquitetura que marcou a modernidade da burguesia paulista dos anos 30. Mais uma tentativa tão falha e tão falsa. E se o branco relativiza o purismo de Warchavchik, as janelas de tais edifícios mais parecem lápides de um tumulo. Um túmulo onde está enterrada a nossa capacidade de produzir uma boa arquitetura.

"Túmulos", edifícios em Higienópolis. Foto do autor.
E não é só isso que se encontra sepultado atualmente. Foi-se a época onde o ambiente bucólico da intelectualidade convivia nos espaços coletivos urbanos em uma relação de troca e encontros que jamais voltaria a acontecer nas mesmas dimensões. O teatro esvaziou-se, os cinemas de rua foram fechados, os bares da boêmia estão tomados de gente sem opinião e a imensa quantidade de má arquitetura produzida nas nossas cidades é recebida tão acrítica quanto austeramente.

Vagando pelas ruas, acabado me perdendo em ideias e no fim, falando demasiada besteira. Mais se atravessar as colinas do Pacaembu me levou do entusiasmo ao abatimento, chegar às ruas de Higienópolis me trouxeram de volta a vida. Reencontrei o Louveira e topei com o Prudência, o Lausanne. Ah, são tão belos os caminhos sinuosos que devaneiam fugindo entre arvores e pilotis encaminhando os indivíduos da rua a sua morada.

Louveira, arq. Vilanova Artigas.1946. Foto do autor.

Depois disso voltei pra casa, tranquilo.